Quem compra um carro para TVDE está a comprar uma ferramenta de trabalho. A conta é diferente: o carro vai fazer 40.000, 50.000, às vezes 60.000 km por ano, e vai ter de continuar legal durante todo esse tempo. Um erro de escolha não custa desconforto — custa margem, todos os meses.
Antes de olhar para modelos, há uma regra que decide quase tudo.
A regra dos 7 anos manda em tudo
A lei que regula a atividade exige que o veículo tenha menos de sete anos, contados desde a data da primeira matrícula. Quando chega aos sete, sai da atividade — esteja como estiver.
Isto tem uma consequência prática que muita gente subestima na hora de comprar:
| Ano da matrícula | Sai da atividade em | Anos úteis a partir de 2026 |
|---|---|---|
| 2019 | 2026 | Praticamente nenhum |
| 2020 | 2027 | ~1 ano |
| 2021 | 2028 | ~2 anos |
| 2022 | 2029 | ~3 anos |
| 2023 | 2030 | ~4 anos |
Um carro de 2019 pode estar impecável e ser uma pechincha — e não lhe serve de nada, porque o relógio já acabou. A pergunta certa não é "quanto custa este carro", é "quantos anos de trabalho ainda me dá".
Os restantes requisitos legais
Além da idade, o veículo tem de cumprir:
- Ligeiro de passageiros com matrícula nacional
- Lotação até nove lugares, incluindo o condutor
- Inspeção periódica um ano após a primeira matrícula e depois anual — um regime bastante mais exigente do que o dos particulares, que só vão à inspeção aos quatro anos
- Seguro específico, cobrindo responsabilidade civil e acidentes pessoais dos passageiros transportados
- Dístico TVDE visível do exterior e amovível
Do lado do condutor: idade mínima de 21 anos, carta de categoria B há mais de três anos, certificado de motorista TVDE e registo criminal compatível com a atividade.
O que as plataformas exigem por cima da lei
As regras da lei são o mínimo. Cada plataforma acrescenta as suas — e mudam com alguma frequência, por isso confirme sempre na fonte antes de comprar.
No caso da Uber em Portugal, e segundo a própria empresa:
- UberX — continua a aceitar a inscrição de veículos a combustão em todo o país
- Uber Black — desde 1 de junho de 2025, as novas inscrições em Lisboa e no Porto só aceitam veículos elétricos. Os veículos a combustão já inscritos podem continuar até atingirem o limite de idade
- Uber Green — reservada, por definição, a elétricos e híbridos plug-in
Há também requisitos de número de portas e de lugares, e listas de modelos elegíveis por categoria que a plataforma atualiza periodicamente.
A conta que decide: custo por 100 km
Com 50.000 km por ano, uma diferença de 4€ aos 100 km são 2.000€ por ano de diferença no bolso. É por isso que, em TVDE, o consumo pesa mais do que quase tudo o resto.
| Motorização e forma de abastecer | Custo aproximado / 100 km | Em 50.000 km/ano |
|---|---|---|
| Elétrico, carregado em casa | 2€ – 4€ | 1.000€ – 2.000€ |
| Elétrico, carregamento rápido público | 6€ – 10€ | 3.000€ – 5.000€ |
| Híbrido, uso urbano | 6€ – 8€ | 3.000€ – 4.000€ |
| Gasóleo, 5,0 l/100 km | ≈ 9€ | ≈ 4.500€ |
| Gasolina, 6,5 l/100 km | ≈ 11€ | ≈ 5.500€ |
A leitura é clara: o elétrico só ganha de forma decisiva se carregar em casa. Quem depende de carregadores rápidos públicos fica próximo do gasóleo — e com a inconveniência das paragens no meio do turno.
Onde o elétrico ganha mais
- Isenção de IUC — os elétricos puros não pagam IUC
- Manutenção mais simples — sem óleo, filtros, velas, correia nem embraiagem. Numa viatura que faz 50.000 km/ano, isto é dinheiro real
- Travões duram muito mais graças à travagem regenerativa, e em condução urbana intensiva a diferença é enorme
- Acesso à categoria Green e às restrições de acesso urbano que venham a existir
Onde o elétrico perde
- Tempo de carregamento é tempo sem faturar, se não conseguir carregar fora do turno
- Pneus desgastam-se mais depressa e são mais caros
- Seguro tende a ser mais alto
- Bateria: numa viatura de serviço, a quilometragem acumula depressa e a garantia de 8 anos ou 160.000 km atinge o limite de quilómetros muito antes do limite de anos
O que verificar num usado para TVDE
- Data exata da primeira matrícula — não o ano do modelo. É ela que conta os sete anos
- Se o carro já foi TVDE ou táxi — quilometragem elevada, desgaste de interior e suspensão acima do normal. Não é motivo para recusar, é motivo para negociar e inspecionar melhor
- Norma de emissões — relevante para restrições urbanas presentes e futuras
- Estado da bateria (SOH), se for elétrico — com 50.000 km/ano, é a peça que define o valor residual. Veja o guia de elétricos usados
- Histórico de manutenção — num carro que vai fazer 50.000 km/ano, um histórico irregular é um risco desproporcionado
- Recalls pendentes — desde março de 2026 chumbam o carro na inspeção, e a inspeção é anual nesta atividade
- Lugares e portas conforme os requisitos da plataforma que vai usar
Em resumo
- Menos de 7 anos desde a primeira matrícula, sempre. Em 2026, isso significa 2019 ou mais recente — mas comprar um 2019 é comprar zero anos de trabalho
- Compare por custo anual, não por preço de etiqueta: preço a dividir pelos anos úteis que restam
- Inspeção anual desde o primeiro ano, seguro específico e dístico obrigatórios
- UberX aceita combustão em todo o país; a restrição a elétricos aplica-se à categoria Black em Lisboa e Porto desde junho de 2025
- O consumo decide a rentabilidade. Com 50.000 km/ano, 4€ de diferença aos 100 km são 2.000€ por ano
- O elétrico ganha claramente se carregar em casa; sem isso, a vantagem encolhe muito
Se está a avaliar entrar na atividade ou a trocar de viatura, o mais útil é fazer as contas antes de olhar para carros: quilómetros previstos, onde vai abastecer ou carregar, e quantos anos precisa que o carro dure. A escolha certa costuma sair sozinha dessa folha.