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Porque é que os carros usados estão mais caros em 2026

Não é impressão sua: o carro usado que há dois anos custava 13 mil euros custa hoje mais. Os dados de julho de 2026 mostram um mercado com a procura a crescer 16% e a oferta a cair 3%, e com o preço médio praticado por profissionais a subir para 24.800 euros. A pressão é maior precisamente onde há mais gente a comprar, abaixo dos 15 mil euros. Este artigo explica o que está por trás da subida e o que isso significa para quem vai comprar nos próximos meses.

8 min de leitura · 5 de setembro de 2026 · Joane, Famalicão
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Ford EcoSport usado na Circuito Car — viatura no segmento abaixo dos 15 mil euros
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Quem andou a ver carros nos últimos meses já reparou: o orçamento que chegava há dois anos deixou de chegar. Não é uma sensação — é o que dizem os números do mercado português em 2026.

Segundo os dados mensais do Standvirtual, em julho de 2026 a dinâmica do mercado de usados cresceu 20% face ao mesmo mês de 2025, com a procura a subir 16% e a oferta a cair 3%. Quando há mais gente a comprar e menos carros à venda, o resultado é sempre o mesmo.

Os números de julho, por escalão de preço

O detalhe interessante não está no total — está em perceber onde é que o aperto se sente.

Escalão de preço Procura Oferta
Abaixo de 15.000€ +23% +5%
Entre 15.000€ e 30.000€ +11% −9%
Acima de 30.000€ +7% +3%
Nota: variações de julho de 2026 face a julho de 2025, com base no panorama mensal do Standvirtual. Os dados de mercado são revistos todos os meses.

A leitura é direta: o segmento mais barato é o mais disputado. Abaixo dos 15 mil euros, a procura cresce mais de quatro vezes o que cresce a oferta. E na faixa intermédia, entre 15 e 30 mil, a oferta está mesmo a encolher — menos 9% — com a procura a subir 11%.

Na prática, é isto que sente quem anda à procura: os anúncios bons desaparecem em dias e o carro que viu ontem já foi vendido.

O preço médio: 24.300€ em janeiro, 24.800€ em julho

O preço médio praticado por vendedores profissionais era de 24.300€ em janeiro de 2026 — já nessa altura mais 3,4% do que no mesmo mês de 2025. Em julho, estava nos 24.800€.

São cerca de 500 euros em seis meses, numa trajetória de subida continuada. Não é um salto brusco: é uma erosão lenta do poder de compra de quem tem um orçamento fixo.

Atenção à leitura: 24.800€ é a média de todo o mercado profissional, puxada para cima por SUV e viaturas premium. Não é o preço de um utilitário com dez anos — é o valor médio do conjunto, útil para ver a tendência, não para orçamentar um carro concreto.

Porque é que falta carro acessível

A procura recuperou e concentrou-se em baixo

O primeiro semestre de 2026 fechou com uma dinâmica de mercado positiva, na ordem dos +12%, e em junho a procura por usados subiu 20%. Mas essa procura não está distribuída por igual: concentra-se no escalão abaixo dos 15 mil euros, que em junho cresceu 26%. Muita gente a querer o mesmo tipo de carro, com o mesmo teto de orçamento.

A oferta de seminovos depende de vendas antigas

Um usado com três a cinco anos foi um carro novo em 2021, 2022 ou 2023. O stock disponível hoje é herdado das matrículas dessa altura — e os anos de pandemia e de falta de semicondutores deixaram uma lacuna que ainda agora se sente nos stands. Nenhuma subida de procura cria carros que não foram matriculados na altura certa.

A importação já não é um nicho

É aqui que os números se tornam impressionantes. Em 2025 foram importados 120.787 ligeiros de passageiros usados, mais 13,7% do que em 2024 — o equivalente a 53,7% do volume de automóveis novos vendidos no país nesse ano, segundo a ACAP.

Metade do mercado de novos, em carros trazidos de fora. A idade média destes importados era de 7,9 anos. A própria ACAP tem alertado que este volume distorce o mercado e compromete a renovação do parque automóvel nacional.

E o parque continua a envelhecer

A idade média do parque automóvel português ultrapassou os 14,1 anos, com cerca de 1,6 milhões de veículos com mais de 20 anos ainda em circulação. Um parque velho significa carros que se mantêm em uso muito para lá do que seria normal — e que, por isso, não regressam ao mercado de usados.

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Onde a maré está a virar: os eletrificados

Há um segmento onde a lógica se inverte, e vale a pena conhecê-lo antes de decidir.

Em junho de 2026, os veículos eletrificados representavam 22% da oferta de usados mas apenas 15% da procura. É o oposto do que acontece no resto do mercado: há mais carro disponível do que compradores. Nos eletrificados premium, a procura subiu 37% e a oferta 22% — cresce dos dois lados, mas partindo de uma base ampla.

O que alimenta esta oferta é o mercado de novos. Entre janeiro e julho de 2026, os 100% elétricos representaram 26% das matrículas de ligeiros de passageiros novos (30,9% só no mês de julho), e os eletrificados no seu conjunto quase 75%. Esses carros vão chegar ao mercado de usados nos próximos anos, em volume.

Traduzindo para quem compra hoje: se o seu perfil de utilização se adapta a um elétrico ou híbrido, é provavelmente onde encontra melhor relação preço/carro neste momento. Se não se adapta, não force — vale a pena ler primeiro se compensa comprar um elétrico usado.

O que fazer se vai comprar nos próximos meses

1. Decida com o custo mensal, não com o preço da montra. Dois carros ao mesmo preço podem ter mais de 200€ de diferença anual só em IUC, sem contar com consumo e seguro. A calculadora de custo mensal soma tudo numa conta só.

2. Tenha a decisão preparada antes de aparecer o carro. Com o segmento abaixo dos 15 mil a esta rotação, quem chega com o financiamento definido e a retoma avaliada fecha negócio; quem só começa a pensar nisso nessa altura chega tarde.

3. Não confunda escassez com pressa cega. Que há menos carro disponível, é verdade. Que isso justifique comprar sem histórico de manutenção, sem inspeção em dia ou sem ver o carro, não é. A checklist antes da visita continua a valer exatamente o mesmo.

4. Alargue o raio de procura. Num mercado apertado, insistir num único modelo, numa única cor e a 20 km de casa reduz muito as hipóteses. Uma alternativa equivalente pode estar a 40 minutos de distância.

Se vai dar o carro na retoma, a notícia é boa

Esta subida tem um lado que joga a seu favor: o carro que tem na garagem também valorizou. Quando o mercado de usados aperta, os valores de retoma acompanham — sobretudo em viaturas com procura elevada, quilometragem controlada e manutenção documentada.

Se está a trocar de carro, isso equilibra a conta: paga mais pelo que compra, mas recebe mais pelo que entrega. Pode ter uma estimativa imediata no simulador de retoma e confirmá-la depois com uma avaliação presencial — é a única que vale para fechar negócio.

Em resumo

  • Em julho de 2026 a procura de usados subiu 16% e a oferta caiu 3% face a 2025
  • O preço médio profissional passou de 24.300€ em janeiro para 24.800€ em julho
  • O aperto é maior abaixo dos 15.000€: procura +23%, oferta +5%
  • Em 2025 importaram-se 120.787 usados (+13,7%), o equivalente a 53,7% do mercado de novos
  • O parque nacional tem 14,1 anos de idade média e 1,6 milhões de carros com mais de 20 anos
  • Os eletrificados são a exceção: 22% da oferta para 15% da procura
  • Quem entrega carro na retoma beneficia da mesma subida

Não há aqui uma previsão de descida para dar. O que há é um mercado onde o carro certo, ao preço certo, não fica à espera — e onde chegar preparado vale mais do que chegar cedo.

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